Descartes

O PENSAMENTO DE DESCARTES E A FÉ COMO ALTERNATIVA RACIONAL

JOSÉ DOMINGOS MARTINS DA TRINDADE

RESUMO: Este Artigo aborda o pensamento cartesiano estruturado no Discurso do Método, Meditações e Cartas. Mostra que o cartesianismo não se susteve como racionalista diante das críticas sofridas, mas fortaleceu ainda mais o ceticismo e o materialismo. Descartes ao usar a Existência de um Deus Onipotente para balizar seu pensamento, acabou implodindo sua própria filosofia. Este artigo não tem a intenção de discordar das críticas feitas a Descartes, mas enxerga na fé uma alternativa ao primado da razão. Diante do indevido abismo moderno colocado entre Fé e Razão este trabalho pretende ser uma ponte entre os dois tipos de conhecimentos: Racional e Emocional, tornando-se uma ferramenta apologética aos interessados na defesa da Fé. Para esse intuito, foram feitas leituras e fichamentos prévios de livros e artigos, analisando os conteúdos e discursos dos mesmos.
Palavras–Chave: Ceticismo. Descartes. Deus. Fé. Razão.

ABSTRACT: This Article deals with the structured Cartesian thought in Discourse on Method, Meditations and Letters. Shows that the Cartesian rationalist as not sustained in the face of sustained criticism, but further strengthened skepticism and materialism. Descartes to use the existence of an Omnipotent God to mark their thinking, eventually imploding his own philosophy. This article does not intend to disagree with the criticism of Descartes, but faith sees an alternative to the rule of reason. Given the improper abyss modern placed between Faith and Reason this work aims to be a bridge between the two types of knowledge: Rational and Emotional, making it an apologetic tool to those interested in the defense of the Faith To this end, readings and record keeping were made prior books and articles, and speeches analyzing the contents thereof.

Keywords: Skepticism. Descartes. God. Faith. Reason.

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho trata sobre a Filosofia de Descartes e a sua relação com a Fé, mais especificamente sobre os aspectos religiosos da Filosofia Cartesiana. Na tentativa de embasar o seu posicionamento em relação à Teoria do Conhecimento, Descartes precisou mostrar a Existência de Deus, bem como a Sua Onipotência.
Outra preocupação Cartesiana era a divisão substancial entre Corpo e Alma. O Filosofo ao colocar em campos opostos Matéria e Espírito se torna na tradição filosófica moderna, um dos pioneiros do chamado pensamento dualista. A tentativa Racional de Descartes para salvar a Ciência e a Religião acabou falhando. O pensador acabou sendo acusado de irracionalista e o Materialismo acabou relegando o espiritualismo há um conhecimento de segunda classe.
Propomos nesse trabalho que a Fé é um elemento que embasa a existência de Deus melhor do que o racionalismo Cartesiano e que a Fé é um elevado tipo de conhecimento que a própria ciência utiliza e necessita. Para o intuito acima mencionado, além da Introdução, dividimos o Trabalho em 7 tópicos. No capitulo 2 será abordado os aspectos gerais da Filosofia Cartesiana, no capitulo 3 Será o enfocado a meditação de Descartes para se chegar a Existência de Deus, no capitulo 4 se mostrará que a idéia de um Deus requer a sua Onipotência. No capitulo 5 O trabalho adentrará no outro campo de preocupação filosófica de Descartes que é a separação entre Corpo e Alma. No capitulo 6 se proporá a Fé como melhor via para se conhecer a Deus. Finalmente na Conclusão, será feito todo um apanhado do pensamento Cartesiano e mostrará que a Fé é também um tipo de conhecimento, sendo a melhor maneira humana de se compreender a Deus.
A pesquisa torna-se relevante por conta da escassez de integração na apologética Deísta entre fé e razão. É proposto que o presente trabalho sirva como ferramenta apologética para os interessados na defesa da fé cristã. A pesquisa possui natureza qualitativa e caráter exploratório, onde foram feitas leituras e fichamentos prévios de livros e artigos, analisando os conteúdos e discursos dos mesmos.

2 A FILOSOFIA DE DESCARTES

Descartes era um pensador da Universidade de Paris, mas que viveu em vários países da Europa durante a sua vida. Desde jovem sentiu-se atraído pelo conhecimento filosófico e por isso mesmo tomou consciência muito cedo da sua própria ignorância.
Como Sócrates, Descartes enxergava na razão a única via ao conhecimento seguro. Dizia que não poderíamos confiar nos nossos sentidos e nem na tradição de livros antigos e Instituições como a Igreja Católica.
Descartes quis explicar a possibilidade e a ocorrência do erro, do engano e da falsidade na mente das pessoas. Para o filósofo, o mau uso da razão e sua aplicação inadequada seriam a causa de todo engano que prejudica um verdadeiro entendimento da realidade.
De acordo com Gaarder (2009, p. 154):

Descartes decidiu então viajar pela Europa – tal como Sócrates, que passou
a vida em diálogo com homens de Atenas. Ele próprio relata que a partir dessa altura só queria procurar o saber que podia encontrar em si mesmo ou “no grande livro do mundo”. Por isso, entrou para o exército e pôde permanecer em diversos locais da Europa Central. Mais tarde, passou alguns anos em Paris. Em Maio de 1629, viajou para os Países Baixos, onde viveu durante quase vinte anos, enquanto trabalhava nos seus escritos filosóficos

Descartes apresenta seu método para o bom direcionamento da razão, em sua 1ª obra chamada o Discurso do Método. O método é um caminho que visa o sucesso na elaboração de uma Teoria Científica.
Acerca do método afirma Marcondes ( 2012, p. 167):

A finalidade do método é precisamente pôr a razão no bom caminho, evitando assim o erro. O método portanto, é um caminho, um procedimento que visa garantir o sucesso de uma tentativa de conhecimento, da elaboração de uma teoria científica.

O método cartesiano mostra-se bem mais simples que a intricada silogística aristotélica utilizada pela Escolástica para a demonstração de pensamentos verdadeiros.
O Método de Descartes surge, devido ao abalo provocado pelos Ingleses de Oxford no Tomismo, e os avanços tecnológicos da época que geraram certo clima de ceticismo na intelectualidade européia.
O embate entre os modelos científicos antigo e moderno, deu vigor para alguns pensadores céticos, lançarem dúvidas sobre a possibilidade do conhecimento cientifico em geral, ou seja, da possibilidade de uma Teoria cientifica explicar de forma correta e definitiva a realidade.
O argumento colocado pelos céticos era que durante vinte séculos, conhecimentos teóricos falsos foram consentidos como verdadeiros. Então, o que impede do conhecimento atual também se basear em argumentos falsos.
Deste modo, Marcondes (2012, p.168) cita alguns argumentos levantados pelos céticos da época:

O que garante que as futuras gerações não descobrirão serem as teorias da ciência nova também errôneas? Como podemos ter certeza de estarmos livres do erro? Talvez a certeza não seja possível acerca de nada. Esses questionamentos mergulharam o homem da época em um “mar de incerteza.

Descartes irá encarar a tarefa de dar fundamentação e legitimação à ciência, afirmando em suas Meditações que o homem pode conhecer a realidade de maneira conclusiva.
Contudo, o ceticismo deve ser encarado de maneira séria, não sendo viável, simplesmente ignorá-lo. A tarefa inicial do filósofo, com seu método, deve ser a refutação das idéias dos céticos.
O Pensador procura um ponto de apoio, que seja imune aos questionamentos céticos, que possa servir de base para o processo do conhecimento.
Naquele momento a autoridade da Tradição, do saber adquirido, mostrou-se inconfiável. Na sua época, conflitos das mais variada correntes de pensamentos são patentes.
Sobre a crise de autoridade da época, seguindo com Marcondes (2012, p. 168):

A autoridade moral e teológica da Igreja foi contestada pela Reforma, pois a Igreja se corrompeu, e os papas, teólogos e concílios cometeram erros no passado, como mostrou Lutero. A autoridade do saber tradicional foi contestada porque este saber continha teorias falsas e errôneas, como revelaram Copernico e Galileu. Não se pode, portanto, confiar na tradição, nos ensinamentos, no saber adquirido

O que resta então? Se a autoridade da Igreja e da Ciência se mostra incerta. Descartes encontra na interioridade, na própria razão humana, no subjetivismo, no sujeito pensante, a fonte do conhecimento.

3 AS MEDITAÇÕES METAFÍSICAS E AFIRMAÇÃO DA IDEIA DE DEUS

O livro intitulado “Meditações Metafísicas” de Descartes inicia com uma dúvida radical em relação à realidade. Esta dúvida faz parte da tentativa de obter um sólido fundamento de certeza, através da destruição de tudo que é posto como válido.
Descartes cria até mesmo a possibilidade de um “deus maligno”, antagônico ao Deus sumamente bom, que é capaz de iludir o ser humano, mesmo naquilo que é julgado ser conhecido claramente.
Partindo da idéia de um Deus enganador, Descartes chega à sua célebre frase: “penso logo existo”, porque mesmo podendo ser enganado por esse Deus, não há dúvida da sua própria existência como ser pensante, pois esse deus não conseguirá nunca a inexistência de alguém enquanto esse alguém pensar que é alguma coisa. Na dúvida, o Eu toma ciência de si mesmo.
Vejamos as palavras de Descartes na 1ª Meditação:

“Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que eles se servem para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado da falsa crença de ter todas essa. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento; e se, por esse meio não está em meu poder ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está em meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo” (§ 12 da 1ª Meditação)

Independente da possibilidade de um deus enganador, ou verdadeiro, ou mesmo da inexistência de um Deus, a certeza do Ser que pensa, permanece intacta.
Mas apesar de ter encontrado no ser pensante um sólido fundamento de certeza perante a dúvida, Descartes não termina aqui suas meditações, pois o pensamento humano acaba apontando para um Ser exterior a si. Vejamos o seguinte questionamento descrito em Lagatta (2010, p. 5):

Tendo chegado a este ponto, poderíamos perguntar-nos a razão pela qual Descartes não termina aqui as suas Meditações, uma vez que encontrou no ente pensante, que permanece sólido perante a dúvida, que conserva a liberdade de excluir qualquer ente, mesmo o próprio Deus, que pode fundar e saber tudo acerca do mundo, em suma, uma vez que encontrou o fundamentum inconcussum?

Lagatta dirá que o próprio Descartes respondeu negativamente a este questionamento, pois demonstrará em sua obra que o ser pensante deve pressupor a existência de Deus.
No entanto, se as idéias que representam objetos e por isso são diferentes uma das outras viessem em seus fundamentos do próprio Eu pensante, elas não acrescentariam em nada em relação a existência de Deus. Descartes intui, então, a existência de uma idéia que não pode encontrar a sua causa no próprio ser humano: “Deus eterno, infinito, onipotente e criador de todas as coisas que estão fora dele próprio”.
Meditando, Descartes afirma:

Demais, encontra-se em mim certa faculdade passiva de sentir, isto é, de receber e conhecer as idéias das coisas sensíveis, isto é, de receber e conhecer as idéias das coisas sensíveis; mas ela seria inútil, e dela não me poderia servir absolutamente, se não houvesse em mim, ou em outrem, uma faculdade ativa, capaz de formar e produzir idéias. Ora, essa faculdade ativa não existir em mim enquanto sou apenas uma coisa que pensa, visto que ela não pressupõe meu pensamento, e, também, que essas idéias me são freqüentemente representadas sem que eu em nada contribua para tanto mesmo, amiúde, mau grado meu…” (§ 19 da Meditação Sexta)

Descartes usa o principio da causalidade para dizer que a idéia de perfeição de Deus só pode ser produzida nele, pelo próprio Deus, pois uma idéia só poderia produzir outra, tendo maior perfeição do que a idéia causada.
Seguindo com Lagatta (2010 p. 6) “Uma idéia só poderia causar outra tendo pelo menos maior realidade (perfeição) como a que foi causada”. Descartes, descobre, assim que a idéia de Deus não pode ser produzida em alguém, senão pelo próprio Deus.

4 A ONIPOTÊNCIA DIVINA EM DESCARTES

Já partindo do pressuposto da existência de Deus, Descartes afirma nas Cartas de 1630-1649, que para Deus, entendimento, vontade e ação são a mesma coisa, criando com isso a noção de “Indiferença Divina”, onde nela não há precedência do intelecto à vontade.
Para Descartes, um Deus onipotente exige essa indiferença, para que suas ações possam ser totalmente arbitrárias e livres, com o poder de estabelecer verdades que para a racionalidade humana são contraditórias ou impossíveis.
Oliveira (2010 p. 143) cita um trecho da VI resposta de Descartes para falar sobre o significado de Indiferença Divina: “… não há ordem, nem lei, nem razão de bondade e de verdade que não dependa dele; de outra maneira, […] ele não teria sido totalmente indiferente a criar as coisas que ele criou” (Descartes 1, AT IX, p. 235)
Esta indiferença divina ligada à sua onipotência, levanta alguns questionamentos por parte da crítica cartesiana. Podemos observar tais questionamentos, sendo levantados na obra de Oliveira (2010, p. 144):

“O que nos leva, conseqüentemente, a perguntar pelo impacto da posição cartesiana, segundo a qual Deus não age motivado por consideração prévia de qualquer ordem: como fica a veracidade divina, se não há razão de verdade? Pode algo ser verdadeiro para Deus sem sê-lo para a coisa pensante? E a situação da racionalidade humana e do próprio racionalismo ante um Deus cujo poder, liberdade e ação são absolutamente independentes das leis às quais a razão humana sempre esteve segura de que toda a realidade obedece e está adequada?”

Essas indagações, levarão a alguns comentadores, taxar de irracionalista o pensamento de Descartes. Para a conciliação desse dilema, propomos a Fé como complemento ao pensamento de Descartes para que Deus seja ao mesmo tempo onipotente e racional.

5 O DUALISMO CARTESIANO

Além da preocupação com a solidez do conhecimento humano, outra problemática com que Descartes se ocupou, foi a relação entre corpo e alma. Em sua época o materialismo era defendido por cada vez mais pensadores, como podemos observar nas palavras de Gaarder (2009, p. 155)

Cada vez mais pessoas defendiam uma compreensão materialista da natureza. Mas quanto mais o mundo físico era concebido de forma mecanicista, mais urgente se tornava a questão da relação entre corpo e alma. Antes do século XVII, a alma fora descrita geralmente como uma espécie de “espírito vital” que percorria todos os seres vivos. Aliás, o significado original de “alma” e “espírito” é também “sopro vital” ou “respiração”.

Para explanar a separação entre corpo e alma o filosofo novamente precisou do conceito de um Ser perfeito, para explicar a veracidade da realidade exterior.
Dizia ele que um Deus perfeito não nos enganaria, de modo que a realidade exterior é assim mesmo como ela é. No entanto, pressupôs existirem duas formas de realidades ou duas substancias: uma é o pensamento ou alma, a outra é a matéria ou extensão.
Gaarder (2009, p.158) dá as características dessa divisão segundo Descartes:

A alma é apenas consciente, não ocupa espaço e, por isso, também não pode ser dividida em partes menores. A matéria, por seu lado, é extensa, ocupa espaço e pode ser dividida em partes cada vez menores – mas não é consciente. Descartes afirma que ambas as substâncias provêm de Deus, porque apenas Deus existe independentemente de todas as outras coisas.
Mas mesmo provindo pensamento e extensão de Deus, as duas substâncias são completamente independentes uma da outra. O pensamento é livre na sua relação com a matéria – e vice-versa: os processos materiais operam de forma totalmente independente do pensamento.

Com esse conceito Descartes se torna um pensador dualista, pois traça uma separação entre espírito e matéria, e que iria influenciar em grande escala o pensamento ocidental.
A filosofia do dualismo dividiu o mundo em uma esfera objetiva da matéria (o domínio da ciência) e outro subjetivo ou da mente (domínio da religião). Com isso Descartes conseguiu libertar a ciência do poder dogmático da Igreja Católica. Acerca dessa divisão escreve Goswami (1998, p. 34):

Ao dividir o mundo em matéria e mente, a intenção de Descartes era estabelecer um acordo tácito: não atacaria a religião, que reinaria suprema em questões relativas à mente, em troca da supremacia da ciência sobre a matéria. Durante mais de 200 anos o acordo foi observado. No fim, o sucesso da ciência em prognosticar e controlar o meio ambiente levou cientistas a questionar a validade de todo e qualquer ensinamento religioso. Em especial, eles começaram a contestar o lado da mente, ou espírito, do dualismo cartesiano.

6 COMO CONHECER DEUS ATRAVÉS DA FÉ.

Tendo seu gérmen no Racionalismo de Descartes, uma divisão criou-se no pensamento contemporâneo entre mente e coração, ou entre razão e emoção. A fé não é vista como algo racional, há o entendimento até mesmo entre cristãos que a fé é algo irracional.
Porém, notamos na Bíblia que essa distinção não existe, a fé que aparece na Bíblia é altamente racional. Segundo Myatt & Ferreira (2002, p. 9) Anselmo Arcebispo de Cantuária orou assim:

Senhor, agradeço-te por me teres criado segundo a tua imagem, para que te conheça e ame. Mas essa imagem se acha de tal modo corrompida por pecados, que não consegue cumprir a tarefa para a qual Foi criada, a não ser que tu a renoves e recries através da fé em teu Filho crucificado, Jesus Cristo. Desejo apenas entender uma pequena parcela de tua verdade, que meu coração crê e ama. Pois não procuro compreender para poder crer, antes, creio para poder compreender.”

Na Palavra Revelada de Deus, o coração é a sede das emoções, e da racionalidade, Myat & Ferreira (2002, p. 9) citam várias passagens bíblicas em sua obra para enfatizar essa afirmação:

“O coração é a sede das emoções, seja de alegria (Dt 28.47) ou de dor (Jr 4.19), da tranqüilidade (Pv 14.30) e da raiva (Dt 19.6), etc. É a sede do entendimento e do conhecimento, das forças e poderes racionais (I Rs 3.12; 4.29), bem como de fantasias e visões (Jr 14.14).”

A fé é o mais alto tipo de conhecimento, sendo que a própria ciência física também utiliza a fé como apoio. Os cientistas trabalham com fé em convicções primárias, como: espaço, tempo, causa e substancia.
A ciência não pode ser invalidada por se utilizar da fé como pressuposto, como podemos notar nas palavras de Strong (2010, p. 32):

Nem por isso a ciência física é invalidada, porque tal fé, embora diferente da percepção sensorial ou demonstração lógica, é ainda um ato cognitivo da razão e pode ser definido como certificação relativa à matéria em que a verificação é impossível.

A fé é um conhecimento inseparável ao estado de santidade, por isso é inseparável do amor à própria Divindade. Sobre como se pode conhecer a Deidade, continuamos com Strong (2010,p. 33)

Não podemos conhecer uma laranja só de olhá-la; para entendê-la, é tão necessário saboreá-la quanto vê-la. A matemática do som não pode nos dar entendimento da música; é necessário também ouvi-la. Somente a lógica não pode demonstrar a beleza do pôr-do-sol, ou de um caráter nobre; o amor ao belo e à justiça antecede o conhecimento do belo e da justiça.

A fé baseia-se em informações confiáveis para a verdade da existência de Deus. O cristão não tem uma fé cega na existência de um Criador, mas têm a Escritura como a Palavra de Deus Inspirada e a própria Revelação de Deus na natureza.
De acordo com Berkhof (2010 p. 12):

A Bíblia pressupõe a existência de Deus em sua declaração inicial, “No principio criou Deus os céus e a terra”. Ela não somente descreve a Deus como o Criador de todas as coisas, mas também como o sustentador de todas as Suas criaturas. E como o Governador de indivíduos e nações. Ela testifica o fato de que Deus opera todas as coisas de acordo com o conselho da Sua vontade, e revela a gradativa realização do Seu grandioso propósito de redenção

As palavras e atos da Escritura Sagrada tornam a nossa fé na Existência de Deus uma fé Racional. E é somente pela fé que podemos aceitar a Revelação da existência de Deus.
O incrédulo não pode conhecer a Deus “… porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que é galardoador dos que buscam”. (Hb 11.6) O homem natural não pode conhecer a Deus.
Berkhof (2010) exprime bem a situação de ignorância do homem natural em relação a Deus, citando as palavras de Paulo:

Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem, pela loucura da pregação, (1º Coríntios 1.20, 21.)

CONCLUSÃO

O chamado Pensamento moderno é inaugurado pela Filosofia de Descartes. O entendimento do pensamento de Descartes leva à compreensão do pensamento da modernidade. A esperança no poder da razão humana individual que levaria a humanidade rumo ao progresso são marcas fundamentais do pensamento cartesiano. No entanto o seu sistema filosófico sofre críticas por parte de pensadores que o acusam de uma radicalidade que acaba implodindo o próprio racionalismo por ele defendido.
Racionalismo é um termo que pode assumir diferentes posições filosóficas. Pode significar a supremacia da razão em relação ao sentimento e à vontade, alegando uma hierarquia de valores entre as faculdades psíquicas. Em outro enfoque, racionalismo pode ser configurado como uma posição segundo a qual somente a razão é capaz de propiciar o conhecimento adequado e verdadeiro da realidade. Por fim, pode significar uma posição que o coloca como a essência do real.
Descartes usa a existência de Deus como ponto fundamental para a sustentação do seu Racionalismo, por outro lado a idéia defendida por Descartes que Deus não está preso à regras e cria as mesmas ao seu Bel Prazer, o transforma, como afirmam os críticos, em um autor irracionalista.
Na tentativa de mostrar a existência de um conhecimento verdadeiro, Descartes estava travando uma batalha contra o próprio ateísmo. O relativismo ao negar a existência de uma verdade absoluta, acaba por negar a existência de um Criador, ou seja, de Deus.
Nessa mesma tentativa, Descartes também propunha salvar a Ciência. Ao fazer isso, por via especulativa, utilizando apenas a razão, acabou por dar mais vazão aos críticos, pois a argumentação central de sua teoria, a de um Deus onipotente, não limitado à nada, deu um enfoque irracionalista à sua Teoria.
A separação que propôs entre corpo e alma, também malogrou na tentativa de barrar o ateísmo, pois a ciência acabou relegando a religião há um conhecimento de 2ª categoria baseada apenas na fé.
Onde a crítica enxerga um ponto de fraqueza na teoria de Descartes, encontramos um ponto de convergência de características do Deus Javé da Bíblia Sagrada. Portanto, um leque de opções abre-se com a semelhança do Deus Bíblico, com o Deus da filosofia de Descartes, um Deus que pode realizar milagres, pois não está restrito às leis da natureza que ele mesmo criou.
Somente através da Fé é que podemos compreender um Deus onipotente, ao contrário do que o racionalismo prega atualmente, a fé é um tipo de conhecimento, que inclusive é utilizada na própria ciência.
É proposto neste trabalho que a fé é um conhecimento elevado, utilizado até mesmo pelos cientistas como pressupostos em suas argumentações e que somente através da fé é que podemos compreender a Deus.
Qualquer outra tentativa de provar a existência de Deus, que não seja através da Fé, irá ter falhas e sofrerá críticas contundentes como tiveram as tentativas de Agostinho, Aquino e do próprio Descartes.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia de Estudo Pentecostal. Revista e Corrigida. CPAD. Rio de Janeiro: 2009

BERKHOFF, Louis. Teologia Sistemática

DESCARTES, Rene. Meditações Metafísicas. Martins Fontes: 2011.

GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia. Uma Aventura na Filosofia. Editorial Presença: 2009

GOSWAMI, Amit. O Universo Autoconsciente. Como a consciência cria o mundo material. 2ª Ed. Rosa dos Tempos. Rio de Janeiro: 1998

JÚNIOR, Ribas Degmar. Dicionário Bíblico Wycliffe.11ª Impressão. CPAD. Rio de Janeiro: 2012

LAGATTA, Paolo, A Questão de Deus em Descartes. (artigo) Disponível em: <http://revistafundamentum.com/Artigos/EdicoesAnteriores/PrimeiraEdicao/Textos/A%20Questao%20de%20Deus%20em%20Descartes-Paolo%20Lagatta.pdf&gt; acesso em: 12/09/2013.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. 13ª reimp. Zahar. Rio de Janeiro: 2012

MYATT, Alan & FERREIRA, Franklin. Teologia Sistemática. Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Rio de Janeiro: 2002

OLIVEIRA, Carlos Eduardo Pereira. O Racionalismo Cartesiano posto em Questão. Jornadas Recepção pela Contemporaneidade do Pensamento do Século XVII, promovidas pelo Grupo de Estudos Espinosianos. São Paulo: 2010

STRONG, Augustus Hopkins.Teologia Sistemática. 2 ed. Hagnos. São Paulo: 2010.

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