Quem foi o maior? Tomás de Aquino ou São Boa Ventura?

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É perceptível e histórico que apesar da Igreja católica referendar e honrar  São Boa Ventura, a mesma acabou adotando a filosofia de Tomás de Aquino, o que contribuiu para que na “balança da fama”, Aquino pesasse muitas vezes mais do que o seu contemporâneo e amigo, que a meu ver foi superior.  Porque a Igreja católica agiu assim? É o que mostraremos nesse artigo, para isso é preciso primeiramente entendermos o conceito de Analogia Entis. Lembrando que de modo algum estamos tentando desmerecer Tomás de Aquino, que certamente foi um gigante na Teologia e Filosofia.

Analogia entis

A abordagem teológica do catolicismo sustenta-se no que é conhecido como Analogia Entis ou Analogia do ser (ente). Para muitos teólogos do catolicismo o conceito de Analogia Entis é mais importante até mesmo do que o papado ou mesmo Maria. O que significa então a Analogia do Ser?  Segundo Myatt & Ferreira (2002, p. 37-38):

“Em primeiro lugar é preciso entender que ela é alicerçada na filosofia aristotélica, que Tomás de Aquino empregou para construir e defender sua teologia (…) Segundo os filósofos católicos, o ponto de partida da filosofia escolástica é o principio de inteligibilidade. Disse Henri Renard: “Esse principio afirma que o ente, o real, é o objeto do intelecto, e, portanto, o intelecto pode conhecer o ser”.  (…) O conhecimento do ente começa com os sentidos: A experiência dos sentidos é o primeiro princípio do conhecimento humano”

Segundo a analogia do Ser, o material e o histórico são portadores da presença divina. A adoração através dos sentidos sacramentaliza o tangível abrindo espaço para a transubstanciação, à Devoção à Maria e a intermediação dos santos.

Seguindo a tradição Aristotélica, Aquino sustenta que o ser é composto de dois princípios: ato e potência e por isso as coisas são capazes de mudar e se diferenciar uma das outras. Somente Deus seria ato puro, cuja a essência coincide com sua existência. Para entendermos mais sobre a Analogia do Ente, seguimos com Myatt & Ferreira (2002,p. 38):

(…) Logo, a realidade de cada ser finito é análoga à realidade de Deus, visto que tem realidade e ele é realidade.

O que significa essa relação análoga? Segundo o escolaticismo ,é a única maneira de entender a relação entre Deus e o mundo, e o nosso conhecimento de Deus, desde que nem a relação unívoca nem a aquivoca servem. A relação unívoca implica identidade. Linguagem unívoca aplica o mesmo vocábulo a várias coisas no mesmo sentido.  (…) isso pode ser feito ao se descrever a criação, mas para falar de Deus, não. (…) Ele não pode ser conhecido na essência, mas sim no sentido negativo. Podemos dizer mais sobre o que Deus não é do que sobre o que ele é. Por outro lado a linguagem equivoca emprega um só vocabulário para descrever duas realidades completamente diferentes. (…) Então a analogia do ser é entendida como um meio-termo entre o unívoco e o equívoco.

Segundo a Analogia entis, a razão pode chegar a compreender a Deus por si mesma, sem precisar da Revelação, o coração do homem pode chegar ao divino até mesmo através de outros homens que são capazes de mediar a relação de Deus com os demais, como é o caso dos santos católicos. Para Aquino, a revelação de Deus nas Escrituras é apenas mais uma fonte do conhecimento de Deus, abrindo a brecha para a mediação da Igreja e suas tradições como fonte de autoridade igual  às Escrituras.

Myatt & Ferreira(2002,p.40) também nos mostram qual a principal deficiência da Analogia do Ser que é:

Mas, desde que a essência de Deus é incompreensível, logicamente não deve ser possível conhecer nem a essência, nem o ser de Deus. Em outras palavras, há uma contradição na analogia do ser que acabará desembocando no ceticismo. Podemos falar de uma forma negativa sobre o que Deus não é, mas nossas afirmações positivas, se tornam no final, vazias. Deus se torna totalmente inefável e misterioso. Fica claro, que se nós pretendemos chegar ao conhecimento de Deus, é preciso encontrar um outro caminho.

São Boa Ventura – Vida e Obra

Local de Nascimento: Civita, hoje distrito de Bagnoregio.

Ano de nascimento: 1217 ou 1218

Cursos: Filosofia na Universidade de Paris (1236-1238) / Artes (1242-1243) / Teologia (1253-1257)

Atividades:

Ensinou no Estúdio parisiense como bacharel bíblico e setenciário (1248-1252)/ Mestre regente (1253-1257).

Ministro –geral da ordem franciscana (1257)

Bispo e Cardeal de Albano (1273)

Obras:

“Definido como “um dos autores mais fecundos e um dos autores mais perfeitos  literariamente que a Igreja jamais produziu” (E. Gilson) Boa Ventura escreveu sessenta e cinco obras, das quais quarenta e cinco foram editadas, de natureza filosófica-teológica, exegética, ascética e oratória.

Tomás de Aquino – Vida e obraResultado de imagem para tomas de aquino

Local de nascimento: Roccasecca em 1221.

Cursos: Universidade de Napoles e discípulo de Alberto Magno em Colônia

Atividades:

Professor assistente na Universidade de Paris (1252-1254) Mestre em Teologia na universidade de Paris (1256-1259) deu aulas em outras universidades européias (Colonha, Roma e Nápoles)

Obras:

  • Principais Obras entre as mais de 50:

  Preces

  • Sermões
  • Suma Contra os Gentios
  • Suma Teológica
  • Exposição sobre o Credo
  • O Ente e a Essência (1248-1252)
  • Compêndio de Teologia (1258-1259)
  • Comentários ao Evangelho de São João
  • Comentários da Epístola de São Paulo

Algumas teses de Boa Ventura

Os erros do aristotelismo

Boa Ventura afirma que a rejeição à teoria das idéias de Platão, é um erro crasso de Aristóteles e seus seguidores como Averrois e Avicena. É o que nos informa Reale & Antiseri ( 1990,pg 579):

“Negar as idéias quer dizer que Deus é somente causa final das coisas, que atrai sem conhecer. Conseqüentemente, Deus não é criador do mundo e não é providente, sendo estranho aos acontecimentos cósmicos, soberbamente fechado em si mesmo. E continua Boa Ventura: “Daí deriva que tudo o que ocorre é casual ou fatalmente necessário. (…) Mas onde não há liberdade não há responsabilidade e, portanto, nem penas o prêmios além desta vida.

O exemplarismo

Boa Ventura elabora a doutrina do exemplarismo para extirpar a visão aristotélica de um Deus que é motor imóvel, impessoal e sem amor. Seguindo com Reale & Antiseri ( 1990,pg 580):

(…) a doutrina do exemplarismo, segundo a qual em Deus encontram-se as Ideias, ou seja, os modelos, e as similitudes das coisas, das mais humildes às mais elevadas. (…) As coisas não procedem de Deus por meio de emanação inconsciente e necessária, mas são livremente criadas por ele, ou seja, desejadas. E quem quer sabe o que quer: Deus é artista que cria o que concebeu.

As rationes seminales

Com esta tese, Boa Ventura quer dizer que Deus já semeou na matéria todas as formas que emergirão, ou seja há na matéria direção das causas naturais.  Seguindo com Reale & Antiseri ( 1990,pg 580):

“Boa Ventura pretendia por um lado, combater as tese aristotélica segundo a qual a matéria é puramente potencial e, por outro lado, combater a tese dos que privavam os agentes naturais de qualquer atividade, atribuindo tudo a Deus”.

Aqui já percebemos a primeira diferença entre o pensamento de Aquino e Boa Ventura, ainda com Reae & Antiseri:

“ Para todo medieval, o cosmos é totalmente dependente de Deus. No entanto, se, para Tomás de Aquino, ele tem em si mesmo as razões de suas atividades, carecendo apenas do concurso geral graças ao qual persiste no ser, já para Boa ventura ele carece  de tal autonomia, necessitando de concurso particular para exercer a sua atividade. O Deus do Aquinense “move” a natureza enquanto natureza, ao passo que o de Boa Ventura a “completa” enquanto natureza. Mais do que exaltar a sua autonomia, como faz Tomás, em consonância com sua inspiração aristotélica, Boa Ventura quer revelar a sua inconsistência, em consonância com a “vanitas vanitatum” do Eclesiastes. Também a partir dessa perspectiva é fácil compreender que a orientação de Boa Ventura é diferente da de Tomás.

A transubstanciação, Tomás de Aquino e Boa Ventura

A doutrina católica da transubstanciação levou bastante tempo para se efetivar, de início a igreja não sabia o que fazer com ela, foi preciso os teólogos começarem a usar Aristóteles para referendá-la, por isso mesmo a terminologia de substância. Após um século de disputas sobre a questão, a Transubstanciação passou a ser o ensinamento oficial da igreja no Quarto Concilio de Latrão, em 1215, cujo o cânone declarava:Resultado de imagem para transubstanciação

“ Existe apenas uma igreja universal do fiel fora da qual absolutamente ninguém é salvo e na qual o próprio Cristo é tanto o sacerdote quanto o sacrifício. No sacramento do altar, seu corpo e sangue estão verdadeiramente contidos nas espécies do pão e do vinho, o pão sendo transubstanciado no corpo e o vinho, no sangue por intermédio do poder divino.”[1]

Houve apenas algumas modificações desse ensino até os dias de hoje, sendo pregado desde então pela Igreja católica, falando sobre isso nos leciona Bray (2017, pg 520):

“ Embora a teoria aristotélica na qual ela se fundamenta não seja mais cientificamente defensável, o poder da tradição católica é tal que a igreja romana consegue ignorar esse fato inconveniente e continua a ensinar seu povo a considerar os elementos consagrados como o corpo e o sangue de Cristo. “

Tomás de Aquino foi o teólogo que sustentou a doutrina da transubstanciação, seguindo com Bray (2017, pg 520):

“ Aquino, argumentou que o pão e o vinho, na eucaristia, mudavam sua substância no corpo e sangue de Cristo, enquanto seus acidentes continuavam a ser o que eram antes. Isso significava que o corpo e o sangue de Cristo não eram percebidos pelos sentidos – o comungante sentia o sabor do que para ele era o pão e vinho. A substância de uma coisa é uma abstração que a mente só percebe por meio do discernimento espiritual:”

Boa Ventura, no entanto, não aceitou a aparente simples explicação de Aquino, seguindo com Bray (2017,pg 522:

“ Boa Ventura se contrapôs a Aquino ao pegar o conhecido caso de um rato que comera um pedaço de pão consagrado. Será que esse rato consumira o Corpo de Cristo? De acordo com os princípios de Tomás de Aquino, o rato teria comido o Corpo de Cristo porque a mudança de substância era objetiva e irresistível.

 Segundo Boa Ventura:

“ o corpo de Cristo não desce de modo algum ao estômago de um rato porque Cristo só está presente sacramentalmente à medida que o pão é destinado ao uso humano. Mas se um rato morde o pão, o sinal deixa de existir e, por conseguinte, também o corpo de Cristo – e a substância do pão retorna’.[2]

Conclusão

Segundo Gonzalez (2011,p 418):

Uma lenda diz que quando o amigo Tomás de Aquino pediu para que Boa Venteura o levasse para a Biblioteca de onde ele tirava tanta sabedoria, Boa Ventura lhe mostrou um crucifixo e lhe disse: “ Aqui está a soma de toda a minha sabedoria”.

O Papa Leão XIII falou que Tomás e Boa Ventura eram as duas oliveiras e os dois candelabros que estão diante de Deus! Uma referência a passagem de Apocalipse e dos profetas.

Mas a verdade é que esses dois candelabros iluminam as coisas de modo bem diferente.

 

REFERÊNCIAS 

História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. Geovnanni Reale e Dario Antiseri. São Paulo: Paulus, 1990.

História Ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. Justo L Gozalez. 2 ed. Revisada, São Paulo, Vida Nova, 2011.

História da Teologia Cristã. Gerald Bray; tradução de Regina Aranha. São Paulo: Shedd Publicações, 2017.

Teologia Sistemática: uma analise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. Franklin Ferreira e Alan Myatt. São Paulo, Vida Nova 2007.

Notas:

[1] Apud Bray: Conciliarum ocumenicurm decreta (Bologna: Istituto per Le Scienze Religiose, 1973) p. 230, Denzinger, Enchiridion, n 02

[2] Apud Gray (2017, pg 522): Boaventura, Commentarium in IV livros Sententiarum, 4.13

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