Por que Deus não se revela explicitamente?

A liberdade de fazer escolhas, e até mesmo a liberdade de rejeitar a verdade é o que nos torna criaturas morais e que capacita cada um de nós a escolher nosso destino final. Se a Bíblia expressa a verdade, então Deus deu a cada um de nós a oportunidade de fazer uma escolha eterna no sentido de aceitá-lo ou rejeitá-lo. Com o intuito de assegurar que a nossa escolha seja livre, Ele nos colocou em um ambiente repleto de provas de sua existência, mas sem sua presença explicita. Presença essa que de tão gloriosa, poderia sobrepujar nossa liberdade, e assim, invalidar nossa capacidade de rejeitá-la. Dessa maneira, Deus nos dá a chance tanto de amá-lo quanto de rejeitá-lo, sem violar nossas escolhas.

O amor deve ser dado livremente, não pode ser forçado. C.S Lewis escreveu sobre o assunto: “ O Irresistível e o Indiscutível são as duas armas que a própria natureza (de Deus) o impede de usá-las. Simplesmente sobrepor-se à vontade humana (o que sua presença certamente faria, ainda que em seu grau mais ínfimo) seria inútil para ele. Ele não pode arrebatar. Pode apenas cortejar.”

Referência

Não tenho fé suficiente para ser ateu. Norman Geisler & Frank Turek.

Anúncios

Buda realizou milagres?

Existem alegações de que Buda operou milagres, mas estas alegações parecem ser falsas, por vários motivos:

1° Os relatos de milagres de Buda não são contemporâneos, e sim adições posteriores.

2° O budismo é uma religião não – teísta, com isso não permite atos sobrenaturais, uma vez que nega um Deus sobrenatural.

3 ° Esses milagres não são ligados  a nenhuma reivindicação de Buda ser um enviado de Deus.

4º Como disse C.S Lewis: “ Mas o que poderia ser mais absurdo do que dizer que aquele que veio para nos ensinar que a Natureza é uma ilusão da qual devemos fugir, se ocupar em produzir  efeitos sobre o nível natural; aquele que veio para nos acordar de um pesadelo, acrescenta mais coisas ao pesadelo? Quanto mais respeitarmos os seus ensinamentos, menos poderemos aceitar os seus milagres”.

Referência

Respostas aos céticos. Norman L.Geisler & Ronald M. Brooks

Deus e a linguagem humana

Deus para se comunicar com as pessoas  utiliza-se de vários meios e o principal deles é a própria linguagem humana. As palavras apesar de inadequadas para retratar  as maravilhas e majestade divinas, apontam para Deus. Por mais incompletas que sejam as palavras, ainda assim, é por meio delas que Deus se revela ao Cristão.

A palavra de Deus é viva e eficaz e tem a capacidade de comunicar a realidade daquele que a proclama àqueles que a escutam.

Calvino diz que nas Escrituras Deus se revela verbalmente sob forma de palavras. O reformador desenvolve o tema da linguagem no que se designa como “principio da acomodação” que deve ser entendido como um ajuste com o propósito de atender às necessidades de uma situação.

Calvino sustenta que Deus tinha de descer ao nosso nível para que pudesse se revelar a nós. Ele “diminui” sua grandiosidade de modo que possa ir ao encontro de nossas necessidades. Exemplo dessa acomodação aparece no que chamamos “antropomorfismo” que são representações de traços humanos em Deus, como  boca, olhos, mãos e pés.  Calvino diz que Deus se revela dessa maneira por causa de nossa limitação intelectual.

Certamente, existem formas mais adequadas para se falar de Deus, mas talvez não as compreenderíamos.  Por meio das palavras da Escritura, o fiel por mais simples que seja, consegue encontrar Cristo e dele se alimentar. Por toda essa importância que a Escritura apresenta, de levar Cristo às pessoas é que Calvino considera tão fundamental reverenciar e interpretar corretamente as Escrituras.

C.S Lewis também refletiu sobre a questão da linguagem, descobriu que as palavras têm o poder de evocar uma experiência que ainda não tivemos, além de  descrever também uma experiência costumeira.

Falar da Graça de Deus é falar da entrada de Deus em nosso mundo e de sua capacidade de se comunicar por intermédio de nossas palavras. Aquele que é majestoso tornou-se pobre por nossa causa, refletindo a sua bondade que permite que as palavras humanas apontem para Ele.

Por fim, a  Palavra e o Espírito Santo unem-se no convencimento que leva o homem a reconhecer que é pecador e precisa da Salvação de Deus.

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos,

A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.

Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.

Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido.

Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam.

Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?

E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas.”

Romanos 10:8-15

Referência

Apologética Cristã no século XXI. Alister McGrath

Um sermão e reflexões sobre a satisfação

“Vocês já notaram o que acontece quando se deseja muito alguma coisa e então se consegue ela? Um emprego novo, um cônjuge, uma qualificação importante, um aumento de salário? Começamos a desejar essas coisas. “Quando eu conseguir tal coisa, ficarei satisfeito e nada mais pedirei da vida”. Mas as coisas não funcionam desse jeito. No momento em que satisfazemos o desejo do nosso coração, já não nos sentimos mais satisfeitos. Queremos mais. Queremos alo diferente. O velho provérbio segundo o qual “ o melhor da festa é esperar por ela” expressa bem esse ponto. O paradoxo do hedonismo, a busca frustrada do prazer, repousa exatamente sobre essa observação. Parece que nada que seja finito é capaz de satisfazer o profundo anseio que sentimos dentro de nós.  De onde vem esse sentimento de anseio? Existe alguma maneira em que seja possível satisfazer esse anelo amargo e doce a um só tempo?…”

Excerto de um sermão pregado por Alister Mcgrath no Ridley College.

Prazer, beleza, relacionamentos pessoais: tudo isso parece satisfazer; entretanto, atingido tais coisas, descobrimos que aquilo que esperávamos delas não satisfaz, não está nelas, e sim além. Uma insatisfação divina permeia a vida humana, o que nos leva a perguntar se existe algo capaz de completar a busca do ser humano pela satisfação dos desejos do seu coração.

C.S Lewis responde positivamente. Ele diz que a fome é um exemplo excelente de uma sensação humana que corresponde a uma necessidade física real. A sede, de acordo com Lewis, é outro exemplo de um anseio humano que remete a uma necessidade igualmente humana, o que aponta para sua realização por meio da ingestão do liquido.

Lewis argumenta que o anseio infinito que temos, que não pode ser satisfeito por nada finito, aponta para a necessidade real do homem que só pode ser satisfeita em Deus.

Os críticos de Lewis dizem que sua argumentação baseia-se em uma falácia elementar. Ter fome não prova que haja pão à mesa. Lewis responde que essa objeção erra o alvo.

“ A fome física de um homem não prova que tal homem terá algum pedaço de pão; ele pode morrer de fome em um bote no meio do atlântico. Certamente, porém, a fome de um homem prova que ele pertence a uma raça que restaura seu corpo alimentando-se e que habita um mundo onde substancias comestíveis existem.  De igual modo, embora não creia que meu desejo pelo Paraíso prove que o desfrutarei, creio que ele é uma indicação muito boa de que tal coisa existe e de que alguns homens a desfrutarão.”.

Elmer Moore, um dos maiores filósofos platônicos dos Estados Unidos se converteu ao Cristianismo, veja sua reflexão sobre isso:

“ Meu anseio por uma voz que se fizesse ouvir no silêncio infinito cresceu a ponto de me torturar. Para me sentir satisfeito, tenho de ver face a face, tenho, por assim dizer, de tocar e sentir, mas como tornar isso possível?”

Moore diz que no começo se sentiu fascinado e satisfeito pelo belo mundo platônico das formas, pelo mundo puramente ideal. Gradativamente, porém, a decepção foi crescendo nele. Começou a sentir uma sensação inexplicável de solidão e abandono.Foi então que passou a buscar a Deus, “ por causa da solidão de um mundo Ideal em que não havia um Senhor”.

Jean Paul Sartre, mesmo com outros objetivos, referiu-se insistentemente á verdade desconcertante de que não podemos achar felicidade em nada que seja humano ou criado.

O Marxismo também reconheceu o sentimento de insatisfação humana e se propôs a curá-lo, com a destruição do capitalismo, contudo onde a revolução chegou esse sentimento de alienação e insatisfação continuou e continua.

O próprio hedonismo como já foi falado, se tornou paradoxal pois o prazer não pode satisfazer.

“ Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti ó Deus” Salmos 42.1

Referência

Apologética cristã no século XXI. Alister McGrath

Porque os Evangelhos não são uma invenção dos Discípulos de Jesus

Apóstolo do Jesus Cristo da última ceia

Pascal nos apresenta um argumento psicológico contrário à acusação de fraude sobre os discípulos terem inventado histórias sobre Jesus:

“ Ou os apóstolos foram enganados, ou eram os próprios enganadores. Qualquer suposição é difícil, porque não é possível imaginar que um homem tenha ressuscitado dos mortos.

Enquanto Jesus estava com os discípulos, podia dar-lhes apoio; entretanto, após sua morte, se não apareceu a eles, quem os fez agir daquela maneira?

A hipótese de que os apóstolos eram fraudadores inescrupulosos é totalmente absurda. Levemos esse conceito às últimas conseqüências. Esses doze homens teriam se reunido após a morte de Jesus e conspirado para dizer que Ele havia ressuscitado dos mortos.  Agindo, assim, eles entrariam em choque com os poderes instituídos da época. O coração do homem é singurlamente suscetível à volatilidade, à mudança, às promessas e aos subornos. Só precisava que um deles fosse levado a negar suas afirmações, por meio de qualquer desses estímulos ou diante da ameaça de aprisionamento, tortura e morte, e todos os outros estariam perdidos. Pedimos ao leitor que medite detidamente nessas afirmações. (PASCAL, Pensamentos 322, 310).

Outro argumento contrário à fraude é que se os discípulos tivessem criado essa história, eles seriam pessoas mais criativas do que Shakespeare, Dante, ou C.S.Lewis.

Aquino também fala sobre isso:

Em meio à tirania dos perseguidores, uma multidão de pessoas simples e iletradas acolheu a fé cristã. Nessa fé existem verdades proclamadas que superam em muito todo o intelecto humano; os prazeres da carne são mantidos sob controle; ela ensina que as coisas do mundo devem ser rejeitadas. Se a mente humana mortal aceita tal proposta, esse sim é o maior dos milagres … Essa conversão maravilhosa do mundo à fé cristã é o testemunho mais claro … porque teria sido realmente mais maravilhoso do que qualquer sinal se o mundo fosse levado a acreditar em verdades tão elevadas, a realizar atos tão custosos e a ter esperanças tão grandes. (Aquino, Suma contra os Gentios I, 6).

Uma mentira desse porte não traria beneficio algum a seus inventores, os discípulos foram perseguidos, odiados, excomungados, torturados, crucificados e lançados aos leões, não houve vantagem para tal intento, no entanto eles nunca retrocederam:  Porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido. At. 4.20

Referência 

Manual de Defesa da Fé: Peter Kreeft & Ronald Tacelli

Tratar Deus no masculino é machismo?

O pronome Ele para indicar a Divindade tem gerado muita controvérsia nos dias atuais. Os cristãos admitem que Deus é Espírito não tem corpo masculino e que as mulheres não são em essência inferiores aos homens.

Entretanto, existem bons motivos para a defesa do uso exclusivo de pronomes masculinos para a referência a Deus.

O primeiro argumento é que os escritores da Bíblia e o próprio Jesus Cristo usaram uma imagem masculina de Deus.  C.S Lewis disse: “Nós, cristãos, acreditamos que o próprio Deus nos mostrou como devemos falar a respeito dele”.

O segundo argumento seria a transcendência de Deus em relação ao Universo ou a natureza. Aqui a metáfora é a seguinte: Da mesma maneira que um homem engravida uma mulher, Deus enche a nossa alma com graça e sobrenaturalidade, então assim como uma mulher não pode engravidar a si mesma, o universo não pode criar a si mesmo, nem a alma pode se auto-justificar.

É preciso ressaltar também  que as Escrituras atribuem a Deus algumas características femininas como o ato de amamentar (Is 49.15), gerar um filho no ventre (Is 46.3).

Concluindo, Deus como masculino invoca a sua transcendência, evitando a confusão de que a natureza  O originou, ao invés de ter sido criada. Evita a ilusão de que  podemos nos salvar sozinhos, sem a graça de Deus.

Como será no Céu?

Um leitor do blog pediu-me para escrever sobre Eternidade, como seria a vida no céu ou paraíso. Devo confessar que achei que a tarefa não seria muito difícil, mas quando fui pesquisar sobre o assunto percebi que realmente a Bíblia fala muito pouco sobre isso.Não adentrarei em questões teológicas como destino dos ímpios, sono da lama, milênio e outras, Quero começar no entanto, com uma anedota que achei muito interessante sobre o assunto:

Um assaltante de bancos depois de ser alvejado pela polícia, acorda caminhando sobre nuvens à entrada de uma cidade celestial. Um piedoso homem vestido de branco lhe concede tudo o que o assaltante quer, mas ele logo se enjoa do ouro que é de graça, das garotas que gostam de apanhar dele e etc…

Então, ele procura o homem de branco novamente, e disse que deve haver algum erro, e pede para ser enviado de volta a Terra. O homem disse que isso não seria possível pois aquele assaltante estava morto.

– Que lugar é esse então?

– É o lugar onde você consegue tudo o que quer.

– Mas eu achava que gostaria do Céu!

– Céu? Aqui não é o Céu! O Céu é outro lugar!

A moral de história é que um mundo sem sofrimento se parece mais com o Inferno do que com o paraíso!

Pesquisei em livros de Teologia Sistmática, em livros de apologética e a melhor fonte que achei pra falar sobre o assunto foi o “bom” C.S. Lewis!

É famosa a sua frase que diz: “O céu não é aqui, mas começamos a vivê-lo aqui, aqui seria como uma ante-sala, logo sairemos dela e experimentaremos de fato o que realmente nos espera.”

Deixando C.S Lewis falar:

A posição do cristão em relação ao céu é muito semelhante. Os que alcançaram a vida eterna e estão na presença de Deus sabem, sem dúvida, que não foram subornados, mas que se deu a consumação da sua aprendizagem terrena; nós, no entanto, que ainda não o atingimos, não podemos conhecê-lo da mesma forma, nem sequer começar a conhecê-lo, a não ser que continuemos na obediência e encontremos a primeira recompensa de nossa obediência no próprio desejo crescente de atingir a recompensa mais alta. E, à medida que o nosso desejo se intensifica, vai desaparecendo o receio de que ele seja puramente mercenário, até reconhecermos que isso é absurdo.

O céu está, por definição, inteiramente fora de nossa experiência, mas toda descrição inteligível precisa utilizar elementos de nossa experiência. A descrição que as Escrituras dão-nos do céu é, por conseguinte, tão simbólica como a que o nosso desejo pode criar por si só: o céu não é de fato coberto de jóias, da mesma forma como não é de fato a beleza da natureza ou uma boa peça musical. A diferença é que as imagens bíblicas possuem autoridade. Elas vêm nos de escritores que viveram mais perto de Deus do que nós e resistiram à prova da experiência cristã através dos séculos

As promessas das Escrituras podem, muito por alto, reduzir-se a cinco: em primeiro lugar, promete-se que estaremos com Cristo; em seguida, que seremos semelhantes a Ele; depois — e aqui é extraordinária a riqueza de imagens — que teremos “glória”; em quarto lugar, que seremos alimentados, festejados ou obsequiados; e, finalmente, que teremos alguma posição de destaque no universo — governaremos cidades, julgaremos anjos, seremos colunas no templo de Deus.

Quando comecei a examinar esse assunto, fiquei chocado ao descobrir que cristãos tão diferentes como Milton, Johnson e Tomás de Aquino davam abertamente à glória celestial o sentido de fama, celebridade ou bom nome. Mas não fama conferida pelas criaturas — era fama perante Deus, aprovação ou (eu diria) “reconhecimento” da parte de Deus. E, depois de meditar sobre o problema, cheguei à conclusão de que se tratava de um ponto de vista bíblico; nada pode eliminar da parábola o divino louvor: “Muito bem, servo bom e fiel”. E assim tombou, qual castelo de cartas, uma boa parte das teorias que eu construíra durante toda a vida. Lembrei, de repente, que ninguém pode entrar no céu senão como menino, e nada há de mais evidente

Posso imaginar alguém dizendo que não gosta da minha concepção do céu, que seria um lugar onde nos dão tapinhas nas costas. Mas por trás dessa rejeição existe uma compreensão falsa, orgulhosa. Esse Rosto, que é o deleite ou o terror do universo, voltar-se-á um dia para cada um de nós com uma das duas expressões, conferindo glória indizível ou infligindo vergonha que coisa alguma poderá curar ou ocultar. Há dias, li num periódico que o fundamental é o que pensamos de Deus. Por Deus, isso está errado! O que Deus pensa de nós não é apenas mais importante, mas infinitamente mais importante! Aliás, o que pensamos dele não tem a menor importância, a não ser quando o que dele pensamos relaciona-se com o que ele pensa de nós. Está escrito que seremos colocados perante ele, que seremos apresentados, examinados. A promessa de glória é a promessa quase incrível, e possível apenas pela obra de Cristo, de que alguns, alguns que verdadeiramente o quiserem, resistirão a esse exame, encontrarão aprovação, agradarão a Deus. Agradar a Deus… ser um verdadeiro integrante da felicidade divina… receber o amor de Deus, não apenas a sua piedade, mas ser o motivo do prazer, como um artista deleita-se em sua obra ou o pai em seu filho — parece impossível, é um peso ou carga de glória que nossa imaginação mal pode suportar. Mas é assim. Note o que está acontecendo. Se eu rejeitasse a imagem autorizada e escriturística da glória e me fixasse obstinadamente naquele desejo vago que, de início, constituía a única indicação para o céu, não veria nenhuma relação entre aquele desejo e a promessa cristã. Mas agora, depois de ter percorrido o que me parecia inexplicável e repulsivo nos livros sagrados, descubro, olhando para trás, com grande surpresa, que a relação é perfeitamente clara. A glória, tal como o cristianismo ensina-me a aguardar, satisfaz o meu desejo original e revela, nesse desejo, um elemento que eu não havia notado. Deixando, por um momento, de considerar os meus próprios desejos, comecei a conhecer melhor o que eu realmente desejava. Quando há pouco tentava descrever os nossos anseios espirituais, omiti uma de suas mais curiosas características. Geralmente, ela faz-se notar no próprio momento em que a visão fenece, a música termina ou a paisagem perde a iluminação celestial. Keats descreveu o que sentimos nesse momento como “a viagem de regresso ao eu habitual”. Vocês sabem do que se trata. Durante alguns minutos tivemos a ilusão de pertencer àquele mundo. Mas agora acordamos e descobrimos que não é assim. Fomos meros espectadores. A beleza sorriu, mas não para receber-nos; o seu rosto voltou-se em nossa direção, mas não para ver-nos. Não fomos aceitos, nem acolhidos, nem fomos convidados para a festa. Podemos partir, se quisermos; podemos ficar, se conseguirmos: “ninguém dará por nós”. Um cientista pode replicar que, sendo inanimada a maioria das coisas a que chamamos belas, não é de admirar que não nos perceba. É verdade. Mas não é dos objetos físicos que falo, mas daquela coisa indescritível da qual eles momentaneamente se tornam mensageiros. E parte da amargura que se confunde com a doçura dessa mensagem deve-se ao fato de que raramente essa mensagem parece destinada a nós, antes, algo que ouvimos por acaso. E, quando falo de amargura, penso em dor, não em ressentimento. Dificilmente ousaríamos pedir nos dessem atenção — mas nos lamentamos. A sensação de que somos tratados como estrangeiros neste universo, o desejo de nos fazer notar, de encontrar alguma resposta, de vencer o abismo que nos separa da realidade, tudo isso faz parte do nosso segredo inconsolável. E, com certeza, desse ponto de vista, a promessa de glória, no sentido já descrito, torna-se altamente relevante para o nosso profundo desejo. Porque glória significa ter bom nome diante de Deus, ser aceito por ele, ter sua resposta, reconhecimento, ser introduzido no âmago das coisas. A porta em que batemos toda a vida finalmente se abrirá. Talvez pareça um tanto grosseiro definir glória como o fato de ser “notado” por Deus. Mas a linguagem do Novo Testamento é quase essa. Paulo promete àqueles que amam a Deus não, como seria de esperar, que conhecerão a Deus, mas que serão conhecidos por ele (1 Co 8.3). É uma promessa estranha! Deus não conhece todas as coisas em todos os tempos? Mas ecoa de forma medonha em outra passagem do Novo Testamento. Nela somos alertados de que qualquer um de nós pode ter de comparecer perante Deus para ouvir palavras aterradoras: “Não vos conheço. Apartai-vos de mim!”.

Excertos retirados do Livro Peso de Glória de C.S Lewis.